O Alentejo é um vasto território de descoberta especialmente para quem gosta de viajar por estradas nacionais e de macadame para o desvendar, como é o nosso caso. Mesmo depois de percorridos dezenas de quilómetros, a paisagem alentejana nunca é igual ou monótona, e o Alqueva é disto prova. Pode, inicialmente, parecer apenas uma constante de planície extensa, ainda que bela. No entanto, uma atenção mais atenta da paisagem depressa revela uma sinfonia de explosões pictóricas e morfológicas, seja no mais pequeno arbusto ou nos imponentes sobreiros, carvalhos, azinheiras e oliveiras. Como pano de fundo, um manto que oscila entre o dourado e o verde, a secura e a seiva que corre livre pelos campos.

Foi neste navegar que chegámos à Barragem do Alqueva, cuja incontornável dimensão e profusão tentacular dos seus infinitos braços nos abraçou num colo telúrico e inspirador. É este um dos maiores encantos do Alqueva para quem está disposto a procurá-lo: a paz e tranquilidade líquidas que permitem uma comunhão invulgar com a natureza, a da terra e a nossa. Bebendo das águas do rio Guadiana, a Barragem do Alqueva foi inaugurada em 2004 e mudou para sempre e profundamente a geografia do Alentejo, afectando os municípios de Portel, Moura, Reguengos de Monsaraz, Évora e Beja. Apesar da sua longa e controversa história que remonta ao fim dos anos 60, a barragem é hoje indissociável das gentes que dela dependem, e representa o maior lago artificial da Europa ocidental. Debruçámo-nos nos grandes e longos muros de betão e não conseguimos ficar indiferentes à grandiosidade da obra bem como à beleza da sua engenharia. Apesar da dimensão da obra, o Grande Lago, como é comummente apelidado, integra-se harmoniosamente na paisagem, mesmo que a tenha transformado irreversivelmente. Prova disso é a transladada Aldeia da Luz, por onde passámos.

 

Perto dali, nos campos abertos e verdes alimentados pela água da reserva, nasceu uma nova paisagem, diferente é certo, mas também bela e mágica. Parámos o ventura-móbil num destes braços de água e estivemos algumas horas a absorver aquela energia caminhando pelas margens, deitando-nos na erva verde a aproveitar o sol daquele fim de tarde, e contemplando as linhas de horizonte ao som dos badalos das vacas e ovelhas, e do chilrear dos pássaros.

Levantamos âncora daquele lugar com o desejo de continuar a desenhar na nossa memória o contorno deste imponente lago, e a preenchê-lo com as descobertas cheias de cor no rico devir da natureza e costumes das suas gentes.

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