Visitámos Gondramaz aquando do nosso roteiro pelas Aldeias de Xisto pelos anos do S.. Quando definimos o plano gostámos logo do aspecto da aldeia, elevada a 600 metros de altitude numa das  encostas na Serra da Lousã, por ser um pouco escondida e de difícil acesso. O próprio nome é forte, enigmático, ressonante, a fazer lembrar o nome das terras do Senhor dos Anéis (a S. é fã e o S. nem tanto).

Chegar lá não é fácil. O caminho inclui estradas sinuosas e estreitas que acompanham o verde luxurioso da montanha e que fizeram as delícias do motor do ventura-móbil. Não é de espantar que Gondramaz seja uma Meca para amantes da prática de BTT. Também o é para caminheiros, com vários trilhos disponíveis, como o caminho de xisto que se inicia logo no final da aldeia e que permite ir à aventura por meio de uma vegetação frondosa repleta de azinheiras, castanheiros e carvalhos.

Ao chegar à aldeia, cuidado, não façam como a S. que ia toda decidida a conduzir o ventura pela estrada de terra batida e depois teve de fazer marcha atrás – não tem saída. Estacionem mesmo ali no largo. Ao sairmos do carro, foi como se entrássemos numa aldeia de bonecas. Era tudo tão lindo, tão mimoso, simplesmente adorável. Em cada inspiração bebia-se silêncio, tranquilidade e paz numa sinfonia onde todos os sentidos exaltavam.

Gondramaz é uma aldeia muito pequena, praticamente reduzida a uma rua principal, mas o que lhe falta em tamanho sobeja-lhe em encanto, especialmente ao explorar as ruelas e muitos becos que a compõe, com nomes pitorescos como o Beco do Tintol. Caminhando pelas ruas estreitas e irregulares de xisto, percebe-se ter havido ali grande investimento de fundos europeus para recuperar a aldeia que devia estar bastante degradada. Ficámos muito agradados com a sobriedade de todas as reconstruções e com o esforço em manter a traça original dos casarios e autenticidade da terra, evidente no bonito lavadouro ou na capelinha. As intervenções de requalificação primam pelo bom gosto e elegância, e fazem sobressair aquele que é o bem mais precioso daquele lugar: o xisto. Vá, o segundo bem mais precioso pois o primeiro é seguramente a simpatia das suas gentes. Se lerem o nosso relato do Pátio do Xisto, onde almoçámos, ficarão rendidos à hospitalidade dos residentes de Gondramaz, cujo acolhimento caloroso torna o passeio muito mais especial. Não é por isso despropositado o poema de Miguel Torga logo à entrada, a receber todos os que por lá passam:

A vida é feita de nadas: De grandes serras paradas; À espera de movimento; De Searas onduladas pelo vento. De casas de moradias, caídas e com sinais, De ninhos que outrora havia nas Beiras; De poeira, de sombra de uma figueira; de ver esta maravilha: meu pai a erguer uma videira, como uma mãe que faz uma trança à filha”.

Artigos Recomendados

Digite e pressione enter para pesquisar