O Hotel de Moura foi uma surpresa. Ao procurar opções de alojamento, o S. satisfaz-se normalmente com limpeza, silêncio e cama de pregos. Já a S., bem mais refinada, procura espaço, conforto, requinte, e faz birra por uma banheira. Tais exigências podem levar-nos longe na nossa deriva aventureira. Foi o que aconteceu desta vez, para não dizermos em todas as vezes que decidimos partir sem destino traçado. Sabíamos apenas que queríamos ir para a zona do Alentejo, uma região da qual ambos gostamos muito pela geografia particular que inclui paisagens e campos a perder de vista numa paleta variegada de cores, cheiros, texturas, fauna e flora de uma riqueza deslumbrantes, boa gastronomia e boa gente pela sua simplicidade e bem acolher.

Não delinearmos qualquer plano é algo que nem sempre corre bem. No entanto, é nesse arriscar que muitas vezes encontramos sítios inesperadamente surpreendentes. Depois de termos engolido centenas de quilômetros sem encontrar “aquele sítio” (apesar de termos espreitado vários), e com a paciência a ser testada pelo cansaço e anoitecer iminentes, eis que chegámos a Moura, já ia avançada a hora. Milagrosamente (ou nem por isso), estacionámos o ventura-móbil mesmo em frente a um belo edifício com uma fachada de azulejos lindíssima. Para nosso espanto, tratava-se de um hotel.

O Hotel de Moura agrada de imediato. É um edifício histórico de construção abobadada de ares mouriscos a sugerir ambientes encantados e a prometer uma noite bem passada a um preço bastante acessível. Depois da longa jornada, esta descoberta apresentou-se como um verdadeiro oásis, e a 45 euros por noite, tínhamos de experimentar. Pedimos um quarto com vista para o jardim e silencioso, e era o que nos esperava. Amplo, e agradavelmente decorado com mobiliário antigo (embora não fosse todo autêntico), tinha duas camas enormes de colchões firmes, e varanda para o belo jardim da Praça Gago Coutinho.

A casa de banho cumpria o requisito mínimo da S. – ter banheira, e logo nos apressámos a procurar as bombas que trazíamos nas malas, antevendo belos mergulhos relaxantes. No entanto, a situação revelou-se calamitosa. A banheira estava sabotada, e a precisar de manutenção urgente. O ralo não vedava. E agora? Desesperados, mas não rendidos, engendrámos uma solução engenhosa que, pensando agora, deveríamos ter patenteado. Num momento de genialidade, o S. sugere à S. que se sente sob um saco plástico e uma toalha de forma a não drenar a piscina.  Abstemo-nos de vos maçar com mais pormenores gráficos a partir deste momento, mas podemos afiançar que a empreitada foi consequente, se bem que o grau de relaxamento ficou diminuído.

Acordar neste hotel é bastante agradável e com o sono retemperado  apeteceu-nos logo sair para o conhecer. Se na noite anterior já havíamos achado a fachada imponente, agora de dia e com sol, a beleza arquitectónica do antigo Convento da Ordem Hospitaleira de São João de Deus foi por demais evidente. Este é constituído por diferentes alas, cheias de luz natural que entra pela grande clarabóia central e por grandes janelas de madeira. Tem também um insuspeito mas delicioso jardim interior bem como um amplo terraço panorâmico caiado de branco, que oferece uma vista privilegiada sobre a bela cidade de Moura.

O pequeno-almoço é servido em modo buffet (numa versão demasiado continental para o nosso gosto) numa sala de tecto alto decorado com frescos encantadores. Cheia de luz, com vista directa para o jardim, mesas vestidas com elegantes toalhas brancas, tudo a pedir calma e a convidar à contemplação. No final, ao dizer adeus, prometemos voltar.

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