Depois de muitos dias de chuva, aproveitámos um belo sábado de sol para escapar ao confinamento e rumámos a Sesimbra à procura de dinossauros.

Dado que não nos é permitido contactar com humanos, esta aventura jurássica pareceu-nos uma boa alternativa. Pela manhã cedinho e munidos de uma mão cheia de tangerinas, uma banana e uma garrafa de água, pegámos no ventura-móbil e aí fomos nós à procura de pó e trilhos.

O concelho de Sesimbra é surpreendentemente rico em achados de icnofósseis. Tínhamos planeado visitar duas jazidas, a da Pedreira do Avelino, no Zambujal, e as da Pedra da Mua e dos Lagosteiros, mesmo ao lado do Santuário do Cabo Espichel, e não nos arrependemos.

Jazida da Pedreira do Avelino

Ainda bem que começámos por esta visita e pudemos acabar em grande com a da Mua e a dos Lagosteiros. Partiu-se-nos o coração ao ver como algo tão fantástico está tão desprotegido e destruído, partilhando o espaço com uma pedreira a funcionar, cheia de lixo e entulho. Apesar de algum esforço em criar um centro interpretativo, acreditamos que tal achado, classificado como monumento natural em 1997, merecia um outro cuidado.

A descoberta remonta à década de 80 aquando da extração de calcários para uso industrial. Foram identificadas cerca de 108 pegadas de vários herbívoros quadrúpedes de cauda longa e pescoço comprido do Jurássico Superior, há 155 milhões de anos. Encontram-se na superfície de quatro camadas de calcário que representava o fundo lamacento da margem de uma laguna.

A rocha, anteriormente plana, encontra-se agora inclinada devido às forças tectónicas compressivas, as mesmas responsáveis pelo levantamento da Serra da Arrábida há cerca de 18 milhões de anos.

Tal afloramento pôs à prova a nossa costela de cabra e bode monteses, com a S. a escorregar várias vezes contribuindo para o polimento da superfície enquanto que o S., sendo um bode mais velho, apresentava um domínio superior da técnica da escalagem com casco.

Por fim, e depois de abastecermos o depósito com duas tangerinas, despedimo-nos do Avelino e do Zambujal a caminho do Cabo Espichel.

Jazida da Pedra da Mua e dos Lagosteiros

Estas pegadas de manadas de dinossauros estão situadas muito perto da Pedreira do Avelino, mesmo ao lado do Santuário do Cabo Espichel e de um aqueduto que data do séc. XVIII.

No entanto, e ao contrário da primeira jazida que visitámos, a Pedra da Mua e os Lagosteiros exigem uma caminhada de cerca de 5 km com vistas deslumbrantes sobre as imponentes falésias e um oceano sem fim. É um passeio fácil, de nível 2, quase sempre plano e sem grandes subidas, por um percurso contínuo de terrenos do final do Jurássico e início do Cretácico, entre 155 a 130 milhões de anos.

 

Entusiasmado pela proximidade da descoberta, o S. acelerou o passo e gritou “PEGADAAAA! OLHA UMA PEGADA!”. Perante tal exclamação, a S. inicia o trote passando rapidamente da caminhada a quatro patas para a posição bípede apenas para se deparar com o seguinte cenário 

Sim, era apenas um charco. Nada de dinossauros… Continuemos.

As várias pistas de pegadas da Pedra da Mua pertencem a quadrúpedes Saurópodes e bípedes Terópodes, e são apenas avistáveis do miradouro. À semelhança do Avelino, a localização destes icnofósseis em plano inclinado nas escarpas evidencia mais uma vez e de forma espetacular a força exercida pelo movimento da crosta terrestre.  

Mesmo ao lado deste miradouro há um caminho que nos leva aos Lagosteiros em cerca de poucos minutos. Este percurso é um pouco mais acidentado e requer mais cuidado para não cairmos por uma ribanceira abaixo, mas permanece relativamente fácil. Dirigimo-nos ao local com a banda sonora do mar tonitruante.

Ao chegarmos, avistámos uma paisagem avassaladora. Um nítido trilho de pegadas com um fundo de um mar azul turquesa, escarpas castanhas e terra vermelha, pontuado por uma vegetação rasteira de uma beleza extraordinária.

Os Lagosteiros constituem um dos mais importantes vestígios de pegadas da era do Cretáceo. Nesta jazida, encontram-se pistas de Terópodes (dinossauros carnívoros) e um outro longo trilho, provavelmente de um Ornitópode (bípede herbívoro). Permanecemos ali muito tempo, ora sentados ora deitados, a interiorizar a magnitude de tal descoberta, sempre com o som do mar a embalar-nos. Tanto que o S. até passou pelas brasas (ele que gosta tanto de uma soneca).

 

Por fim, virámos costas com a promessa de voltar muitas vezes.

Se querem fazer uma viagem no tempo, não procurem mais. A meia hora de Lisboa espera-vos uma aventura jurássica. 

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