Quem leu o nosso relato do Inatel do Piódão sabe que esta viagem fez parte do roteiro que planeámos pelas Aldeias de Xisto para comemorar o aniversário do S.. Há muito que ouvíamos falar das belezas desta aldeia, escondida em plena Serra do Açor, no concelho de Arganil, mas nem um nem outro a havíamos visitado ainda. Chegámos pela alta montanha num cenário de filme sebastiânico com um nevoeiro cerrado assustador que não permitia ver um palmo à frente dos nossos narizes, incluindo o do ventura-móbil que deve ter ido a 2 km/h, se tanto. Estas surpresas meteorológicas são o pão nosso de cada dia na montanha, por isso aconselhamos quem encontrar estas condições a não se armar em Fangio por muito que lhe apeteça.  O provérbio devagar se vai ao longe é muito apropriado em Piódão. E devagar, fomos bem longe.

Quando ouvimos falar muito num sítio e sabemos que é muito turístico, normalmente torcemos o nariz. Por norma, gostamos de ir a lugares um pouco desconhecidos. E o Piódão é daquelas aldeias postais que corre o risco de concentrar magotes. No entanto, a nossa experiência foi memorável precisamente porque tivemos muita sorte. Dentro do azar da pandemia, éramos os únicos hóspedes do hotel – foi surreal. Além disso, Março não é altura de grande confusão pela terra seja como for (em Julho e Agosto deve ser impossível). Aconselhamos vivamente a visitarem a aldeia fora da época alta.

A janela do nosso quarto oferecia uma vista de cortar a respiração directamente para a aldeia e para os seus magníficos socalcos. Se de dia o impacto é já extraordinário, à noite o deslumbramento continua, assemelhando-se a um presépio vivo.

Melhor só uma caminhada até à aldeia. Demorámos uns 15m a pé do hotel pelos campos de pastoreio, e pelo caminho encontrámos ovelhas, riachos, nascentes e a natureza selvagem que tanto apreciamos.

 

Ao chegar ao sopé da aldeia, passando uma bonita ponte, pudemos explorar livremente e absorver a genuinidade daquele lugar. Agradecemos muitas vezes a nossa ventura de podermos andar ali à descoberta praticamente sozinhos, bebendo aquela paz e silêncio absolutos. Não faz sentido visitar estas aldeias de outra forma.

Muito mimosa e bem cuidada, cheia de animais, incluindo amistosos cães e gatos à procura de festas, a aldeia de Piódão oferece uma viagem no tempo a casa subida ou descida pelas sinuosas ruas e becos estreitos de xisto muito arranjadinhos, a convidar ao espanto. A reconstrução das casas está muito bem conseguida e integra-se de forma muito harmoniosa na paisagem envolvente. Vimos casas tão lindas construídas a diferentes níveis, acompanhando os socalcos férteis, com apontamentos sóbrios de azul sem estragar o destaque do xisto, como é o caso da Igreja matriz dedicada a Nossa Senhora da Conceição, caiada de branco.

Em todas as mudanças de direcção encontrávamos gente acolhedora. Até os animais são hospitaleiros. Claro que a S. se pôs logo a fazer festas a todos os cães que encontrava, e o S. também não resistiu, pois como costuma dizer muito humildemente, os animais adoram-no.

Subimos por montes fora dos trilhos arranjadinhos, e espreitámos casas na periferia da aldeia, ainda por reconstruir. Numa dessas escaladas, encontrámos uma ruína de xisto com uma placa a dizer vende-se. Telefonámos imediatamente e foi com pena que soubemos que já havia sido vendida, caso contrário teríamos perdido a cabeça (um dos nossos passatempos preferidos quando passeamos por aldeias que nos tocam é sonhar em reconstruir uma casa antiga).

Por tudo isto,  aconselhamos uma visita ao cenário ímpar que  esta magnífica aldeia serrana oferece, desde que se fuja da confusão dos meses de Verão.

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