Foi na Quinta do Barrieiro, em Reveladas, perto da histórica aldeia de Marvão, que conhecemos o Sá, o nosso mestre em forma de cão. O Sá não é um cão. É daquelas pessoas-cão que nos faz sentir estúpidos por sermos só pessoas.

Somos ambos apaixonados pela natureza e por animais, não fôssemos nós uns grandes exemplares. A S. é doida por cães (por alguma razão o S. diz que está sempre a rosnar), e o S. partilha deste seu entusiasmo, apesar de também apreciar a natureza felina.

Chegámos à Quinta do Barrieiro já de noite e logo percebemos que se tratava de um lugar especial. Na primeira noite ficámos instalados nos apartamentos traseiros, muito mimosos e tradicionais mas, para as nossas expectativas e dado que íamos ficar várias noites, demasiado pequenos. Gostamos de espaço, e a S. quase nunca passa sem a sua banheira sendo que as casas mais pequenas têm apenas poliban. Num dia de frio e chuva, impunha-se um banho de imersão.

Pedimos para mudar para a Casa Nascente no dia seguinte, do outro lado da quinta, e com alguma sorte esta não se encontrava alugada para os dias que pretendíamos. Tudo tratado com toda a disponibilidade e simpatia pelos donos.

Antes da casa, voltemos ao Sá. Já nessa primeira noite, o Sá fez-nos uma recepção estudada ao pormenor, entrando no pequeno apartamento e fazendo truques amorosos que incluíam saltar para a cama, para o sofá e pedir festas na barriga. Engane-se portanto quem pensar que o Sá é um sem abrigo. A S. queria ficar com ele lá dentro durante a noite mas o S. não foi na cantiga. Pobre Sá, obrigado a enfrentar os elementos.

Na manhã seguinte, mudámo-nos para a Casa Nascente, um lugar verdadeiramente mágico. Dos estúdios mais bonitos em que estivemos. Enorme, com um cheiro entranhado a madeira tratada, todo ele requinte, com lareira (e lenha à discrição), cama enorme, sala de estar, zona de refeições, cozinha e um terraço gigante com vistas assombrosas para a serra. Realmente fantástico, a cerca de cem euros/dia. Optámos por não pedir o pequeno almoço pois por quinze euros e tendo nós cozinha preferimos comprar produtos locais ao nosso gosto.

E de repente, lá está o Sá a olhar para nós, a comer o seu pequeno almoço com os hóspedes vizinhos, o vendido! Fora aí que passara a noite, qual gigolo. No entanto, mal o chamámos para vir caminhar connosco pelos pinhais, eis que Sá se transforma em guia, guru da Serra de São Mamede, e nos lidera todo o dia por trilhos, riachos e campos de castanheiros. Foi inesquecível.

Quando nos deitámos no chão a descansar um pouco, sentou-se e esperou por nós, fiel, crescendo impaciente, como quem diz “andem lá, toca a mexer, quero ir passear”. Chamou-nos umas três vezes. Vinha ao pé de nós, choramingava, impaciente, sentava-se e levantava-se como se tivesse pulgas carpinteiras. À quarta vez não voltou, seguiu o seu caminho, independente. Chamámos por ele imenso tempo antes de abandonarmos o local, mas o Sá já havia deixado o ensinamento do dia, que muitas mães não conseguem passar aos seus filhos: “não é já vou! É vou já!”. E o Sá foi.

Quando retornámos ao final do dia à Casa Nascente, o Sá estava à nossa espera. Novamente impaciente, como quem reclama “como se atrevem a chegar tão tarde? Quero entrar, seus animais!”.

Fomos incapazes de o deixar lá fora, chovia tanto. Enviámos uma sms aos donos da quinta a avisá-los de que o Sá estava connosco para não ficarem preocupados, mas a verdade é que éramos nós que estávamos com o Sá. Era tudo dele: a lareira, a manta no sofá, a cama. Até o queijo ao pequeno-almoço. Pão não era com ele, demasiado frugal, gostava era de queijo. Ficámos nós com o pão a olhar um para o outro com cara do que éramos: parvos, perante tal sumidade. O Sá foi nosso hóspede (ou nós dele) nos restantes dias, e ficará para sempre connosco.

Connosco ficarão igualmente as muitas esculturas fantásticas espalhadas por toda a quinta que conferem a este lugar uma dimensão mágica.

 

Muitas vezes falamos em regressar à magia da Casa Nascente e ao Sá. Esperamos poder fazê-lo em breve. Obrigada Sá. Para a próxima, seguir-te-emos quando mandares.

 

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