“Há sítios no mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles.”

Miguel Torga

 

O Parque Nacional Peneda Gerês é um mundo impossível de descrever em palavras. Nenhuma é suficiente para dar a verdadeira ideia da grandiosidade deste local. O Gerês é daqueles sítios que parece saído de um conto de fadas ou de um livro do Tolkien, tal é a sua beleza. Por muitas vezes que lá voltemos, e já tínhamos ido algumas, o deslumbramento e a descoberta estão sempre garantidos. Fomos em finais de Outubro, quando o trabalho permitiu. Não será a altura ideal se quiserem dar um mergulho nas muitas lagoas e piscinas naturais espalhadas um pouco por toda a parte, fazer longas caminhadas, ou até canoagem nas várias albufeiras. Apanhámos até alguma chuva, o que em nada estragou a nossa experiência, limitando apenas alguns passeios. Se quiserem o nosso conselho, recomendamos evitar visitar a região no Verão de forma a fugir da enchente de turistas e da inflação de preços, e optar por ir na Primavera ou no início do Outono. Podendo, aconselhamos finais de Maio ou Junho. Fomos em altura de pandemia, mas podemos garantir que no Gerês só há Covide.

O Parque Nacional do Gerês é gigante, com cinco grandes portas de entrada, uma em cada município. São elas a Porta do Mezio (Arcos de Valdevez), onde fica aquele famoso baloiço ao qual sinceramente não achámos piada nenhuma, dedicada à Conservação da Natureza e da Biodiversidade; a Porta de Lamas de Mouro (Melgaço), dedicada à História e Ocupação do Território; a Porta de Montalegre (Montalegre), dedicada à Paisagem; a Porta do Lindoso (Ponte da Barca), dedicada à Geologia e Água, e a Porta do Campo do Gerês (Terras de Bouro), dedicada à História e Civilizações, e por onde iniciámos esta nossa viagem. Vale a pena bater a todas as portas, que atravessam as quatro serras da região: Peneda, Soajo, Amarela e Gerês.

O roteiro que partilhamos abaixo é apenas um cheirinho da magia que esta região tem para oferecer. Para falarmos de todos os sítios que gostamos seria preciso escrever uma enciclopédia de vários volumes. Não é esse o propósito deste relato. Preferimos deixar-vos com alguma curiosidade, e dar-vos liberdade para descobrirem o vosso Gerês, respeitando o vosso ritmo e vontades.

 

PARQUE DA CERDEIRA, TERRAS DE BOURO; BARRAGEM DE VILARINHO DAS FURNAS; MATA DE ALBERGARIA E CAMINHADA DA GEIRA

Quem leu o nosso relato sobre o magnífico Parque da Cerdeira sabe que este foi a base escolhida para começarmos as nossas aventuras pelo Gerês. Ficámos num bucólico bungalow de pedra com lareira e vista deslumbrante para as montanhas.  Situado no Campo do Gerês, em Terras de Bouro, o parque oferece uma localização ideal para conhecer a zona sem ser preciso sequer pegar no carro.

Encontra-se a uma curtíssima distância a pé da famosa Barragem de Vilarinho das Furnas, construída em 1972 e que tem o nome da povoação que foi completamente submergida aquando da sua edificação. Por vezes, especialmente em alturas de grande seca, é ainda possível vislumbrar os telhados e muros das habitações graníticas da antiga aldeia comunitária. Desta vez não tivemos sorte mas a imponência daquele espelho de água é suficiente para fazer voar a imaginação.

Foi também a pé e partindo do Parque que nos embrenhámos na belíssima Mata da Albergaria, um bosque encantado, mágico e luxuriante, a fazer lembrar uma floresta dos contos de fadas, para fazer a caminhada da Geira Romana, que completámos em cerca de 3h.

Ao longo deste percurso fomos passando por vários marcos miliários com quase dois mil anos que nos fizeram sonhar com outros tempos e prestam homenagem a vários imperadores Romanos. Com os nossos paus de caminheiro apanhados pelo caminho (já temos uma extensa colecção das nossas viagens), quase que ouvíamos os sons dos fantasmas de exércitos passados ao calcorrear trechos de calçada medieval desgastada pelas rodas dos carros de bois. Capazes de comer um boi chegámos nós ao regressar ao Parque depois de tamanha marcha. À falta de boi, marchou uma bela posta barrosã no Restaurante do Parque.

 

VISITA GUIADA ÀS ALDEIAS DE BRUFE, CUTELO E CORTINHAS

Uma das actividades que queríamos muito usufruir enquanto instalados no Parque Cerdeira era uma fantástica caminhada guiada que o Parque organiza para os seus clientes pelas aldeias locais de Brufe, Cutelo e Cortinhas por uma quantia muito simbólica, cerca de 10 euros, e que a S. já tinha feito há uma década atrás numa estadia com umas amigas. Só tivemos pena do tempo não estar melhor para podermos fazer mais trilhos, como o das Minas dos Carris. Já havíamos visitado Brufe uns dias antes, e continuava absolutamente encantador. Essencialmente rural, com casas graníticas sólidas e austeras, rodeada de espigueiros, eiras e moinhos-de-água que encerram um bucolismo adorável, finalizado nas míticas bosteiras de Brufe, sinal da passagem de dos seus mais típicos habitantes, os cavalos garranos e as vacas barrosãs.

 

 

Estas visitas proporcionam uma perspectiva destas aldeias ligando-as através de trilhos pelo campo à medida que nos embrenhamos por diferentes registos de paisagem, sem nunca pisar uma estrada de asfalto. Acreditamos que esta é a forma mais autêntica de conhecer o Gerês. Tocando nas ervas, comendo-as (quando o guia Miguel autorizou, como o umbigo de Vénus), cheirando as flores, bebendo as águas frescas que jorram das fontes, apanhando castanhas à passagem que metemos nos bolsos, bem como pedras de quartzo, seguindo as vacas de grandes cornos e dando festinhas nas suas barrigas, identificando excrementos de lobos pelos vestígios de tufadas de pêlo de coelho, apanhando uvas americanas com sabor a mel directamente das videiras até nos doer a barriga, acompanhados por canídeos locais que nos acharam graça e não queriam largar-nos.

 

Ficámos com o coração tão cheio depois daquela caminhada. Curiosamente fizemo-la com outro casal de Lisboa. E se ao início andávamos todos com medo uns dos outros e do vírus e mal falávamos, acabámos o passeio em amena cavaqueira como se fôssemos amigos há muito. Que bela forma de conhecer pessoas, e a nós próprios. Uma manhã perfeita. E de volta ao ventura e às aventuras pelo asfalto, encontrámos mais uns amigos pelo caminho numa visão tão habitual neste Gerês.

 

VILA TERMAL DE LÓBIOS

Há cerca de uma década, quando a S. ficou no Parque com umas amigas, foi ao banho da praxe às Termas quentes de Lóbios, situadas na freguesia de Rio Caldo, no Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés. Fez inclusive canoagem na albufeira ali perto. Desta feita, quisemos repetir tão quentinha memória, e lá fomos nós no ventura-móbil à procura das famosas águas especialmente indicadas para tratar doenças reumáticas e da pele. Para nossa tristeza, os tanques ao ar livre encontravam-se vazios e encerrados, tapados por grandes rochas devido à pandemia, sendo apenas visíveis ténues fios de água a escaldar (a água ultrapassa os 70 graus). Ainda andámos a molhar as mãos e a imaginar como seria bom mergulhar naquela maravilha com um certo cheiro a enxofre, até desistirmos pois era tudo demasiado deprimente.

Que balde, sem água! Como não somos de desistir facilmente, ainda nos dirigimos ao edifício das termas logo acima, mas o resultado foi o mesmo: outro balde de água fria. As termas estavam abertas, mas com tantas restrições e histeria que decidimos  fazer-nos à estrada, derrotados. Maldito covid. Voltaremos seguramente.

 

SOAJO

A aldeia do Soajo, localizada no concelho de Arcos de Valdevez, era uma das aldeias que mais ansiávamos visitar, e foi talvez a que mais nos decepcionou. Não a aldeia, atenção, que é lindíssima, mas toda a confusão de gente que a engolia. É sempre o problema dos sítios demasiadamente conhecidos e turísticos. Estar a ver seja o que for enquanto se tem de esperar pela nossa vez, no meio de centenas de pessoas em pleno contexto de pandemia não era para nós opção. Decididamente, não recomendamos visitar o Soajo ao fim-de-semana pois o caos estragou completamente a nossa experiência. Nem estacionamento havia!

Ainda assim, para não sairmos dali totalmente derrotados, arrastámo-nos ao lindíssimo conjunto de espigueiros cuja construção varia entre o séc XVIII e XIX (pelas fotos que tínhamos visto julgámos que fosse  maior), e demos o nosso melhor para fugir das lentes dos muitos turistas que tiravam fotografias a torto e a direito.

Sentimo-nos imensamente desconfortáveis com todo aquele reboliço e a certa altura já só queríamos sair dali. De certa maneira foi um déjà vu da experiência que vivemos no Talasnal.

 

GERMIL

 

Germil foi um achado glorioso. Tão glorioso que passámos por lá duas ou três vezes, e só não foram mais porque o plano de viagem obrigava a ir para outras paragens. É o nosso tipo de descoberta – completamente inusitada. A aldeia de Germil está situada a cerca de 15 km de Ponte da Barca e nunca tínhamos ouvido falar dela, mas íamos guiados pelo ventura-móbil explorando a Serra Amarela até que demos por nós a entrar numa pequeníssima aldeia da qual gostamos imediatamente, instalada por entre socalcos de vinha, pontuados por frondosos carvalhos e castanheiros.

Isolada, de difícil acesso pela montanha e com vistas fabulosas, Germil recebeu-nos com o seu ambiente rural e comunitário, composto por um pequeno aglomerado de habitações adoravelmente típico da zona (e outras nem tanto, nitidamente fruto da emigração), de pedra granítica, ladeadas por ruas estreitas e calçadas de pedra, e por todo o lado abastecido por água que jorrava com força e carácter.

Uma interessante e bonita igreja, espigueiros em granito,  galinhas soltas pelas ruas, e a nossa recordação mais memorável: um fartote de uvas americanas das mais doce que provámos, e que roubámos de algumas vinhas, tendo para isso o S. subido a vários muros enquanto a S. guardava a área e indicava as mais apetitosas. Apanhámos tantas, mas tantas, mas tantas uvas que tivemos receio que nos desse uma volta mesmo antes de arrancar. Felizmente não. E voltámos lá mais alguma vezes para rapar mais algumas (num dos muros perto de uma casa estava um sinal de uma câmara de vigilância: se por acaso aparecermos, tenham piedade de nós, eram tão boas).

 

LINDOSO

Ao contrário de Soajo, também conhecido pelos seus espigueiros, a aldeia de Lindoso, no concelho de Ponte da Barca, deixou em nós recordações extremamente marcantes, calmas e inspiradoras. Lindoso é lindo! A Serra Amarela é realmente um local encantador.

Ao chegarmos, estacionámos o ventura-móbil mesmo em frente ao largo da belíssima e granítica Igreja Matriz, enorme por sinal. Logo ao lado encontrámos o imponente Castelo e um conjunto enorme de espigueiros que constitui o maior aglomerado da Península Ibérica. É quase demasiada informação para absorver ao mesmo tempo… igreja, castelo, espigueiros, e ruas de pedra que sabemos que chamam por nós para que as calcorreemos. Um enquadramento fantástico. Começámos pelo Castelo, construído no reinado de Afonso III, no séc XIII e mais tarde restaurado por D. Dinis, de entrada livre e relativamente bem conservado, e de onde pudemos vislumbrar paisagens maravilhosas e panorâmicas sobre a serra, a aldeia, e a Albufeira do Lindoso.

Os espigueiros, antigos celeiros, são cerca de uma centena, e deixaram-nos estonteados com tamanha beleza. Estão extremamente bem conservados e  a melhor parte foi que pudemos vê-los praticamente sozinhos. Éramos apenas nós e uma família de estrangeiros que nos pareceram estar a viver numa caravana. Ahhhh, a liberdade…

Dali metemo-nos pelas ruelas estreitas contornadas por ribeiros e riachos (água não falta), e seguimos galinhas à solta, gatos e cães, descobrindo a cada beco os recantos mais amorosos daquela grande aldeia, sempre com o cheiro a uvas e a fogueiras (que o S. acha tão característico do Minho). Pelo caminho, subindo e descendo, íamos enchendo a barriga de uvas, e mais uvas, e mais uvas…e figos. E mais uvas. A nossa boca já colava.

As gentes, acolhedoras, cumprimentavam-nos com um sorriso, e nós a disfarçar a carga roubada de Baco. Lindoso lindo.

 

SANTUÁRIO DE SÃO BENTO DA PORTA ABERTA E TERMAS DO GERÊS

Há muito que a S. conhecia São Bentinho e a sua história, tendo visitado o Santuário com uns tios ainda adolescente. No entanto, só quando estacionámos à frente do mesmo é que se fez um clique: era ali que havia estado há tantos anos! Corremos para ver se encontrávamos um São Bentinho, fundador dos Beneditinos e Santo das causas impossíveis, mas o ar plastificado dos Bentinhos disponíveis não nos convenceu. Não haveria um Santo mais sobriamente esculpido, em simples madeira? Não. Ah…as coisas simples são realmente as mais difíceis de encontrar, sendo as mais belas.

Fomos dar uma volta pelo imponente edifício do Santuário, um dos ex-libris do Gerês e o segundo maior santuário em Portugal, depois de Fátima. Situado num plano geográfico privilegiado em Terras de Bouro e rodeado pelas não menos belas vistas da Albufeira da Caniçada, a ermida original remonta a 1640 tendo sido reconstruído mais tarde, em 1880. O nome “da porta aberta” deve-se ao facto de servir de abrigo a viajantes. A porta também se abriu para nós, se bem que espreitámos a sua monumental beleza à socapa, para não interromper uma missa. Mas um dos cânticos dos peregrinos assentou-nos como uma luva:

 

“S. Bento, meu S. Bentinho,

Sarai-me a perna quebrada

Que para além do Formigueiro

Eu tenho de ir de Jornada.”

Felizmente não tínhamos pernas quebradas, mas a jornada esperava por nós, e assim nos despedimos de São Bentinho, não tendo ficado indiferentes à aura mística daquele lugar. Ainda fomos dar um pulo às Termas do Gerês, onde o S. já havia ficado em miúdo, mas encontrámo-las bastante degradadas, muito longe dos tempos áureos de um antigamente. Foi até um pouco triste sentir aquele abandono, especialmente para o S. que se lembrava delas com bastante vida e animação.

 

CASTRO LABOREIRO

A entrada para Castro Laboreiro é feita pela Porta de Lamas de Mouro, em Melgaço, em plena serra da Peneda, e é magistral. Isolada num dos pontos mais altos do nosso território, quem chega à aldeia quase parece que chega ao topo do mundo. Logo à passagem da porta, avistámos um bonito cão Castro Laboreiro deitado a apanhar sol, desatento à passagem do tempo. Tudo ali inspira calma e tranquilidade.

Não tivemos muito tempo para explorar, mas ainda deu para comermos um apetitoso bacalhau (à falta de cabrito) no Miradouro do Castelo, do qual já falámos aqui, e fazer uma bela caminhada pelo lindíssimo e austero Castelo de Castro Laboreiro.

Apesar de estar em ruínas conserva ainda todo o seu charme medieval da antiga fortificação. São perceptíveis os restos das muralhas, a torre de menagem e até uma antiga cisterna. A grande porta principal, também conhecida como Porta do Sol, acolhe-nos para um interior onde o vento que se faz sentir impõe respeito no meio de um silêncio ensurdecedor.  Imponente, isolado no topo do monte e dominando a paisagem a mais de 1000 metros de altitude, o Castelo oferece vistas panorâmicas de cortar a respiração. Tivemos mesmo pena de não ter mais tempo para explorar a zona e enveredar pelos imensos trilhos existentes.

 

OUTEIRO

O Outeiro foi das nossas mais memoráveis estadias no Gerês. Como o topónimo indica, é uma aldeia altaneira, situada a quase 900 metros de altitude, acima das águas da Barragem de Paradela. De Outeiro tem-se uma magnífica vista, e mais além, até onde podemos descortinar toda a barroca e recortada Serra do Gerês com os seus inúmeros picos.

São pouco mais de 150 residentes que habitam o pitoresco casario rural, na sua maior parte construído em granito como muitas das aldeias desta região. Como em muitas outras, os seus habitantes ocupam-se da agricultura e da criação de gado, mas esta terra tem uma particularidade: está viva. São as pessoas na sua azáfama, os caminheiros à procura do trilho, as lindas vacas barrosãs que largam, em fila indiana, bosteiras por todo o estreito empedrado, os cães presentes e bem territoriais a demarcar os seus limites, e agora, como nós, andam por ali  – os visitantes.

Outeiro é uma aldeia em mudança. Muitos saíram, emigrando, outros foram ficando. Depois de mais do que uma década em Inglaterra, o Miguel e a Fernanda  voltaram e trouxeram a experiência para o seu conceito turístico A Casa do Albelo, onde ficámos instalados.

Muito andámos pelas cercanias da aldeia. Descobrimos trilhos que nos levaram longe por entre campos bem verdes, onde molhámos pés em riachos e nos deitámos nas ervas ou sentámos nas grandes pedras, observando cabras montesas fugidias. Diga-se que é abundante a água vinda da montanha, e esta ouve-se na sua correria por todo o lado, sulcando caminhos que a levam não sabemos bem para onde.

 

 

Assim foi connosco. Esta aldeia fez-nos sonhar com muitos trilhos pelas montanhas para descobrir, e sabemos que pelo menos a um voltaremos muitas vezes para o percorrer: aquele que nos levará ao nosso querido Outeiro.

 

 

A um saltinho a pé de Outeiro encontram-se também duas localidades  que convidam a longas caminhadas e bastantes festinhas em cães que passeiam livremente pelas ruas com aspecto amistoso: Paredes do Rio e Parada do Outeiro. Se forem com tempo, não deixem de as visitar e percorrer alguns trilhos.

 

PITÕES DAS JÚNIAS

A aldeia histórica de Pitões das Júnias, em Montalegre, havia despertado a nossa curiosidade mesmo antes de lá chegarmos. O nome era algo estranho, misterioso. Ao pesquisar o significado do topónimo, encontrámos uma explicação absolutamente deliciosa de  José Dias Baptista na sua obra “Topónimos de Barroso” que o blogue Carris cita:

“Topónimo de raiz antiga, pré-Latina – Pitt – que significa aguçado, pontiagudo. É, portanto, um topónimo topográfico, o que se confirma pelas características orográficas das redondezas, em que ressaltam os chamados “Cornos da Fonte Fria”, “Pala da Vaca”, “As Fisgas”, “São João da Fraga”, “Penedo Grande”, “Fraga de Paul”, “Lamas da Portela”, “Castelo Pé da Moega”, “Cascata”, etc. (…) Quanto às Juynas, Iuynas ou Juyas há-de ser fórmula errónea de Unhas, importantíssimo elemento da lenda da fundação do Mosteiro que se chamava Mosteiro da Senhora das Unhas (Mosteiro da Nossa Senhora das Unhas) está bem explícito nos documentos do P.e Diogo Martins Pereira a que acima aludimos (…). Não ponho as mãos no fogo por Júnias! Antes vejo no termo a tentativa de alguns eclesiásticos acharem sujo o nome Nossa Senhora das Unhas e tudo fazerem para o erradicarem”.

 

Esta aldeia serrana está localizada a mais de 1000 metros de altitude. Mesmo antes de entrar na aldeia, uma manada de vacas conduzida por uma pastora fez tremer o ventura-móbil depois das desgraçadas o terem atingido com as suas barrigas (ufff, nem queremos imaginar o que seria se tivesse sido com os cornos). Felizmente apenas meteram o espelho retrovisor para dentro. Mesmo assim, sempre que o ventura via uma vaca até se engasgava.

 

O ventura e nós! Sim, que por Pitões não faltam vacas de porte XXXL.

 

Quando chegámos começou a chover, e as ruas estreitas pareceram-nos ainda mais estreitas, estreiteza inversamente proporcional à beleza das suas construções xistosas e graníticas. Por todo o lado são visíveis anúncios de alojamentos turísticos, que até agora parecem não desvirtualizar a aldeia em demasia.

Não temos vergonha em dizer-vos que a nossa passagem por Pitões tinha um objectivo secreto: comer as bolas de Berlim que o Miguel, o guia do Parque da Cerdeira, nos tinha recomendado, vendidas na única padaria da terra, guardada por cães de aspecto amistoso que pediam festas. Enquanto esperávamos à porta, tivemos de nos desviar várias vezes para passarem as ocasionais manadas. Sim, que elas é que mandam nestas terras. E no final, as desejadas bolas. E se eram boas. Trouxemos também um belo pão de ló.

 

Dali partimos para o outro motivo que nos trouxe a Pitões, o Mosteiro cistercense de Santa Maria das Júnias, a poucos kms da aldeia, classificado como monumento nacional. Que maravilha. Ficámos completamente apaixonados por aquele lugar majestoso, fértil, encantado, cheio de riachos e vida.

 

 

Ainda tivemos tempo para umas produções cinematográficas de incrível bom gosto e execução profissional.

 

 

É um sítio verdadeiramente mágico, isolado, atravessado por um lindíssimo ribeiro cujo som enche o silêncio envolvente. Percebemos perfeitamente por que o escolheram como lugar de reclusão e introspecção. Também nós tivemos dificuldade em dizer-lhe adeus.

 

TOURÉM

Queríamos visitar Tourém pois para a nossa passagem por Montalegre estivemos bastante indecisos entre ficar lá, na  Casa dos Braganças, reconstruída para turismo de habitação, ou em Outeiro. Apesar de não nos termos arrependido de ficar na Casa do Albelo do Gerês, como explicámos no nosso relato, Tourém revelou-se uma aldeia igualmente encantadora e muito bem cuidada. Adorámos vaguear pelas suas ruelas e casas graníticas imponentes e bem conservadas, apesar de albergarem pouco mais de 100 habitantes.

 

Visitámos a Casa dos Braganças que havíamos visto apenas online, onde fomos recebidos de braços abertos pelos donos, que nos mostraram todo o edifício e cada quarto individualmente: maravilhosos!

 

Tourém convida a calma, a contemplação, e a conversas demoradas com os locais, gente tão generosa e com histórias de vida tão marcantes. Ficámos profundamente comovidos com a senhora Maria, que guardamos no coração. Tínhamos parado o ventura-móbil no adro de uma igreja e, à falta de cafés abertos a servir almoço devido à pandemia, decidimos comer o pão de ló que tínhamos comprado na padaria em Pitões, além das bolas de Berlim. Ao abrir a mala do carro vislumbrámos uma senhora com uma certa idade sentada ao sol nos degraus da pequena igreja, que nos cumprimentou ao trocarmos olhares. De boca cheia, perguntámos-lhe se aceitava um bocadinho de pão-de-ló, que era bom. Que sim, e que o filho dela, que vive com ela, também havia de gostar. Pois demos-lhe logo ali o que restava do bolo e sentámo-nos a conversar com ela demoradamente. Soube-nos tão bem… e a ela esperemos que também. A Sra Maria teve uma vida dura mas isso não afectou a sua meiguice, generosidade e fé no ser humano, mesmo em relação a dois estranhos com pinta de gulosos. Falámos sobre tudo e sobre nada, sobre as suas filhas em Lisboa, sobre o seu filho, sobre o seu falecido marido, e estivemos quase a aceitar o seu convite para ir a casa dela, que nos disse ser pequena mas que tinha lareira acesa e nos fazia alguma coisa para comer. Onde é que ainda se encontra desta gente…?? Ainda agora nos emocionamos ao relembrar agora o seu gesto, afabilidade, e força frágil, e ansiamos por voltar a Tourém para a ir visitar, esperando ainda encontrá-la. Tourém foi para nós a benção de conhecer a Dona Maria.

 

ALDEIA ABANDONADA DO SALGUEIRO

Aquando da nossa estadia no Outeiro, tivemos oportunidade de explorar a zona envolvente e numa das últimas viagens decidimos dar um saltinho a terras de nuestros hermanos, mais precisamente à mágica aldeia abandonada de Salgueiro. Situada a 1050 metros de altitude, foi abandonada em meados do século passado devido à emigração maciça, e pertence hoje à junta da Galiza. O acesso é bastante acidentado, feito por uma  estrada de terra batida, ora com grandes buracos, ora com grandes pedras no caminho, o que só fez aumentar o nosso entusiasmo (lá fez o ventura-móbil perninha de jipe). Quase a chegar à aldeia, tivemos de estacionar o ventura atrás de umas grandes barreiras que impediam a passagem de carros para além daquela linha, tendo o caminho remanescente de ser feito a pé. E aí fomos nós, com os nossos paus de caminheiro, desviando-nos das bosteiras de belos cavalos garranos que conseguíamos avistar ao longe, nos prados.

 

A aldeia não se encontra habitada mas por todo o lado é visível um grande esforço de reconstrução (que nos pareceu de certa forma parado), arquitectado sem ferir a autenticidade do local. É um lugar surpreendente, composto por um aglomerado de bonitas casas de xisto numa rua comprida que conduz a um forno comunitário, a um moinho e a uma capela.

 

Diz-se que os habitantes viviam da ganadaria, da agricultura e do fabrico de carvão de urze, mas que a falta de vias de comunicação e as condições difíceis de vida ditaram que se transformasse numa aldeia fantasma, curiosamente alvo de grande peregrinação turística, sendo especialmente procurada por caminheiros.

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