O Parque Nacional da Serra da Estrela é gigante, abrangendo os distritos de Castelo Branco e da Guarda, e atravessando os municípios de Celorico da Beira, Covilhã, Gouveia, Guarda, Manteigas, e Seia. A Serra da Estrela foi uma das nossas primeiras viagens em alta montanha, e que privilégio poder calcorrear aquela paisagem deslumbrante de cortar a respiração. Ali, todos os nossos sentidos se tornam mais vivos, e a nossa pequenez perante a grandiosidade da natureza fica mais evidente. Foi realmente inesquecível.

Será impossível partilhar todos os sítios por onde passámos. À semelhança do nosso Roteiro pelo Gerês, vamos deixar-vos apenas alguns pontos mais marcantes, por forma a permitir que façam as vossas próprias descobertas. Visitar a(s) serra(s), é, acima de tudo, uma experiência profundamente pessoal e introspectiva. Neste nosso relato não incluímos as cidades, pelas quais também passámos, como Seia, Manteigas ou Gouveia, lindíssimas mas já sobejamente conhecidas. Concentrámo-nos mais na natureza. Também não referimos as espetaculares aldeias de Folgosinho ou Linhares da Beira, pois já as descrevemos em outros posts. Assim, recomendamos vivamente que não falhem os seguintes lugares:

 

PENHAS DA SAÚDE

Penhas da Saúde é uma pequena aldeia situada no coração da Serra da Estrela a 1500 metros de altitude, no distrito da Covilhã, e onde ficámos quando estivemos instalados no Luna Hotel Serra da Estrela. Daí aproveitamos para fazer longas e revigorantes caminhadas, enchendo os pulmões com aquele ar puro da montanha, e absorvendo o silêncio e paz daqueles lugares onde a magia da natureza e as tonalidades da sua flora e fauna  são  mais tocantes. Tocantes, mas pela negativa, foram também os muitos sinais da destruição que os fogos causaram na região, e que nos entristeceram profundamente.

Uma das nossas caminhadas preferidas foi à Barragem do Lago do Viriato, também conhecida como Cova do Viriato, um trilho relativamente perto do Hotel, localizado na freguesia de Cortes do Meio e cujas águas abastecem a Covilhã. A  barragem, concluída em 1982, oferece vistas deslumbrantes e refrescantes por entre zimbrais e urzes, enquanto podemos contemplar aglomerações graníticas de extrema beleza e ouvir o coaxar de sapos e rãs. Contornámo-la a toda a volta numa aventura que demorou várias horas pelo meio de ribeiras e cascatas, tendo regressado ao Hotel pelo emaranhado da serra, reaparecendo na zona mais abaixo, dos Chalets. “Olha, viemos ter aqui!”, exclamámos. Vínhamos arranhados, mas com um sorriso de orelha a orelha. Viriato ficaria certamente orgulhoso do nosso grande e heróico feito.

 

TORRE

A nossa excitação ia aumentando à medida que nos encaminhávamos para o ponto mais alto da Serra da Estrela, a 1993 metros de altitude: a famosa Torre. A chegada àquela que é a única estância de ski do nosso país faz-se através de uma estrada de fácil acesso, larga e asfaltada, mesmo que as vistas imponham respeito.

No Inverno português, com alguma sorte, pode vislumbrar-se esta imponente paisagem coberta de neve, fazendo a delícia de miúdos e graúdos. Nós fomos no Verão mas o quadro era igualmente sublime. E mesmo no Verão não se armem em pimpões: aconselhamos um casaquinho, especialmente se quiser andar nos elevadores de ski, como fizemos. A S. ia muito preocupada em fechar a cancela de segurança dos teleféricos e quase que levava com ela na cabeça. A vista dos elevadores é aterradoramente fantástica. Dali, vê-se tudo e todos: lagoas, rebanhos cujo badalos ecoam enquanto abanamos as pernas tentando chamar a sua atenção,  com a S. a gritar com o S. para “não abanar aquele porcaria” (não foi bem porcaria que ela disse mas vamos manter o nível, e não não é essa em que estão a pensar), nitidamente mais dada à prática de sku do que de ski. Com a vista desafogada e desimpedida em todas as direcções, foi uma experiência inesquecível.

Depois desta aventura bastante divertida que foi certamente o ponto alto (no pun intended) da nossa visita à Torre, ainda parámos para espreitar as lojinhas, sem no entanto levar nada. O nosso coração já estava cheio.

 

LAGOA COMPRIDA

Eis-nos instalados alguns dias nas Penhas da Saúde. Muito rapidamente, como habitualmente, fazemos a pé a exploração das cercanias. Saímos no ventura-móbil do Hotel Luna com a lição estudada, e seguimos alguns quilómetros pela estrada nacional N 339, que faz a ligação à Torre, em direcção à Lagoa Comprida. Sabíamos que originalmente era uma pequena lagoa, mas que no início do século XX fora construída uma barragem com o objetivo de criar o maior reservatório de água da Serra da Estrela. Encontrámos uma lagoa, e, fazendo jus ao nome, era bastante comprida, com aproximadamente 1km de comprimento.

A área é cercada por uma vedação, que objectivamente não ofereceu resistência à intrépida audácia dos calejados exploradores. Circunscrevemos a lagoa sempre que possível o mais perto da água pois observa-se deste modo com proximidade e toque a flora, avistando-se alguns espécimes aquáticos e uma ou outra ave. Subimos ainda às zonas mais altas seguindo os curiosos e bastante fedorentos dejectos de cabra, relativamente ao nível da água, tomando belas perspectivas da Lagoa e dos grandes blocos de granito, ali prostrados desde a última glaciação. Para quem gosta de caminhar e do silêncio das alturas montanhosas, recomenda-se vivamente.

 

SENHORA DA BOA ESTRELA, COVÃO DO BOI 

Quase a chegar à Torre, a cerca de 1850 metros de altitude, encontrámos um recanto que pela sua espetacularidade nos pareceu saído directamente de um dos filmes do Senhor dos Anéis. Em boa verdade, não sabemos porque razão Peter Jackson não quis filmar as aventuras dos aventurosos Hobbits ali. Só por desconhecimento, mesmo. A S. já havia ido à Torre há muitos anos, mas não se lembrava de ter visto a grandiosa escultura da Nossa Senhora da Boa Estrela, conhecida como a Padroeira dos Pastores, e cuja aparição repentina ao contornar uma curva nos tirou o fôlego.

Demorámos alguns segundos a conseguir fechar a boca tamanho foi o nosso espanto. Situada no lugar de Covão do Boi, a enorme Nossa Senhora mede à volta de sete metros e foi esculpida directamente na portentosa rocha granítica por António Duarte nos idos 1946. Todos os segundos domingos de Agosto, centenas de devotos acorrem ao lugar para lhe prestar culto durante as festas e procissão em sua honra. Não resistimos a sair do carro e passear pelos verdejantes campos pontuados por enormes aglomerados graníticos e ribeiros, que conferem àquele local uma atmosfera absolutamente mágica, e mística. Que bonito. Ali, contemplando aquela paisagem assombrosamente magnânime, sentimo-nos muito pequeninos.

Antes de ir embora, encarnámos o espírito dos pastores de outrora (e dos poucos que subsistem), pedindo à Nossa Senhora para nos guiar e proteger na nossa viagem. E assim foi.

 

COVÃO D’AMETADE

Enquanto a S. recorda com pormenor impressionista o acampamento no Covão d’ Ametade com os pais, tios e primos nos tempos idos da sua adolescência, o S., que desconhecia este frondoso enclave de vidoeiros, disse que lhe fazia lembrar uma aguarela do Cézanne na contracapa de uma edição portuguesa dos Cadernos de Malte Laurids Brigge.

O Rio Zêzere inicia a sua marcha de bravura ali entre os três Cântaros que se erguem em torno deste local: o Cântaro Raso, o Cântaro Magro e o Cântaro Gordo. Segundo a S., onde se sente melhor é ali entre o Gordo e o Magro, com clara preferência para o último, apesar de nem sempre ser fácil alcançá-lo.

Forma-se assim, de modo natural, um parque com árvores que propiciam uma zona de lazer de excelência servida por estruturas de apoio para campismo, com um grande parque de merendas. Como o próprio nome Covão indica, trata-se de uma área escavada que oferece uma bela e majestosa perspectiva das formações graníticas envolventes, cenário que inspira a fotografias de postal.

Foi em pleno Verão que por aqui passamos a fixar a cor, a forma e os cheiros. Voltaremos a visitá-lo, já que a paragem é obrigatória em qualquer das estações, munidos da nossa sensibilidade para finalizar um quadro naturalista que ali se iniciou.

 

FONTE PAULO LUÍS MARTINS

Saindo do Covão d’Ametade e atravessando o Vale Glaciar do Zêzere em direcção a Manteigas pela majestosa e panorâmica EN 338, apresenta-se, do nosso lado direito, uma bela fonte de água que brota directamente da nascente com uma força e caudal impressionantes, a mais de 1330 metros de altitude. Tivemos de parar para encher as muitas garrafas vazias que se acumulavam no carro. Fazendo o mesmo estava um senhor muito simpático que enchia igualmente dezenas de garrafões.

A fonte, datada de 1951, é feita de granito robusto e tem uma pia rectangular que acolhe a água gelada (a cerca de 6 graus) que sai por duas sóbrias bicas. Depois de dois dedos de conversa, seguimos caminho até Manteigas, mas a memória da fonte acompanhou-nos durante toda a nossa viagem pela Serra da Estrela. As qualidades desta água (companhia Glaciar) são reconhecidas internacionalmente, tendo inclusive ganhado várias distinções.

 

VALE GLACIAR DO ZÊZERE

Descemos pelo troço que liga o planalto superior da Serra da Estrela a Manteigas e que julgamos ser dos mais belos trajectos de estradas nacionais (N338) do país. Travados pela vontade comum de admirar o longo Vale Glaciar do Zêzere, fomos marcando passo em vários encostos de estrada para admirar as impressionantes perspectivas do U formado pela erosão do glaciar, seguindo o serpentear do rio Zêzere. Como a sede contempla a geologia, pela estrada fora, à passagem, íamos bebendo da muito fria e pura água das nascentes da serra. No fundo do Vale, avistam-se zonas de pastos verdes, onde algumas ovelhas e cabras pastam, e uma ou outra ruína de casas construídas em granito humanizam a paisagem. Vamos baixando a cota até Manteigas, são mais de 10 km de puro êxtase, e temos a poderosa sensação que não fomos arrastados pelo glaciar na sua descida, mas sim pela esmagadora beleza da natureza.

 

SABUGUEIRO E O CÃO CHONÉ

A aldeia de Sabugueiro situa-se a 1050 metros de altitude, registo que lhe confere o galardão da aldeia mais alta de Portugal. À chegada, uma placa ostenta com orgulho essa informação. Chegámos ao Sabugueiro vindos da longa e vertiginosamente espetacular estrada que inicia na Torre. Na altura, não tínhamos ainda o ventura-móbil, mas o seu irmão já sabia que tinha de se agarrar bem às curvas, sob pena de voarmos ribanceira abaixo. A paisagem envolvente é extraordinária, apesar da marca dos fogos de há uns anos ser dolorosa ao olhar. Custa pensar no que foi destruído pelo fogo, e no quanto povoações daquelas regiões sofreram.

Como contámos no nosso relato do Abrigo da Montanha, onde ficámos instalados, a primeira impressão da aldeia engana. Parece deserta e sem muito para ver. Que engano! É absolutamente encantadora e seguramente das nossas preferidas em toda a Serra da Estrela.

Com cerca de 500 residentes, a terra vive essencialmente do turismo, e são imensos os alojamentos (seguidos uns aos outros), restaurantes e lojinhas com produtos locais, onde o S. comprou uma bela camisa de pele, um verdadeiro achado, e a S. o seu queijinho).

 

A povoação é muito antiga, remontando a 1296, e floresceu, diz-se, de um aglomerado de pastores que passeavam os seus rebanhos de cabras e ovelhas. E vimos tantas a passar pela rua guiadas por senhoras idosas, num passo a imitar o “deixa-me ir degavar, mais devagarinho,  parado, ui olha ali uma ervinha boa, ai já levei com o pau nos rins”. Cenas mais bucólicas são difíceis de imaginar. O Sabugueiro mantém intacta a sua autenticidade enquanto terra de humildes pastores e tradições seculares.

Em toda a volta, o cenário natural é deslumbrante, com pitorescas e rústicas casas de granito e xisto, o forno comunitário, a igreja com o sino em cujos degraus nos sentámos, os gatos e os cães que passeiam livremente, e a fonte do Ferreiro.

 

Nos dias de mais calor, como foi o caso já que fomos no Verão, podemos ir à Praia Fluvial a uns escassos metros do Abrigo, alimentada pelas águas da ribeira da Fervença, um afluente do Rio Mondego.

 

Para terminar, a história do Choné, o pequeno e belo cachorro serra da estrela que nos roubou o coração. A S.  insistia em ir todos os dias pedir aos donos para pegar nele, cobrindo-o de beijinhos e abraços e sentindo aquele cheirinho a cão bebé e aquela barriga gorda amorosa. Ainda tentou que o S. convencesse os pais dele a  ficarem com o doce, mas sem sucesso (e o S. bem tentou). Ao sair, desanimada, até chorou por deixá-lo ali…

 

PRAIAS FLUVIAIS DO VALE DO ROSSIM, LORIGA E LAPA DOS DINHEIROS

Ao desenharmos o nosso roteiro pela Serra da Estrela, quisemos visitar algumas praias de montanha. Quem nos conhece sabe que adoramos praia e água, e não é só na costa que se encontram exemplares merecedores de belas explorações, mergulhos refrescantes e o ocasional virar de frango. Tivemos a oportunidade de visitar três durante a nossa estadia (havendo muitas outras):

Vale do Rossim

Começamos pelo eco-resort do Vale do Rossim e pela sua magnífica praia fluvial (com nadador salvador no Verão), uma lagoa artificial situada a quase 1500 metros de altitude, no concelho de Gouveia, muito perto das Penhas da Saúde, onde estávamos instalados, no Luna Hotel. Antes da implantação da barragem, esta era uma zona de pastoreio frequentada por grandes rebanhos. Agora os rebanhos somos nós. O eco-resort do Vale do Rossim é uma zona de recreio ampla no topo da montanha, constituída por um parque de campismo com diferentes modalidades de alojamento como yurts ou casas de madeira, além das tradicionais tendas e roulottes, e zonas de lazer, incluindo um simpático restaurante onde comemos um belo bacalhau com broa (algo leve antes de um mergulho, portanto). Se quiserem trazer marmita há muito espaço para piqueniques. Saímos do restaurante a rebolar passando a zona de esplanada localizada em cima do areal para fugirmos das pessoas. Depois de andarmos um bom bocado contornando a lagoa, começámos a encontrar vegetação mais densa incluindo árvores e arbustos e espaços mais recônditos e isolados, mesmo ao nosso gosto, protegidos do vento pelas encostas da serra.

Ali fizemos o papel que mais gostamos de representar: o de náufragos perdidos em ilhas desertas, tendo o S. chocado a flora local com a sua falta de decoro.

 

A S. desta feita não aderiu, temendo mirones do KGB – e em boa verdade também tinha mais febra para esconder, alimentada aos saborosos e sempre leves pratos serranos. Que maravilha e privilégio podermos desfrutar daquele silêncio e paz em completa reclusão.

Recomendamos imenso uma visita. Apesar de muito frequentada, a sua extensão permite encontrar spots secretos longe da confusão da entrada.

 

Praia da Loriga

Outra praia fluvial que ficou na nossa memória é a Praia da Loriga, de bandeira azul, situada no vale glaciar de Loriga, de águas cristalinas e puras alimentadas directamente pela nascentes da serra. A cerca de 800 metros de altitude, a paisagem é caracterizada por uma vegetação rasteira e terreno acidentado, sincopados por grandes rochas e penedos, e com uma vista incrível da serra, incluindo uma imponente ponte romana que confere um ambiente ainda mais místico ao local.

 

A água? Gelada claro está, ou não estivéssemos nós num vale glaciar. Garantimos que até acorda mortos, e põe os vivos mais rijos do que os primeiros. O facto do acesso ser algo difícil traduz-se num ambiente de grande paz e tranquilidade, inserido numa paisagem natural de extrema beleza. Conta com boas infraestruturas de apoio (como um simpático bar, posto de socorros, zona de merendas e nadador salvador), e imensos trilhos para palmilhar. Tivemos pena de não termos mais tempo para os explorarmos. Atenção que o estacionamento é muito pequeno e como é muito procurada, nem sempre é possível usufruir do silêncio da montanha, interrompido por cacarejos humanos mais ou menos estridentes.

 

Lapa dos Dinheiros

Esta praia serrana é ainda mais escondida, situada no lugar da Ponte da Caniça, sob a ribeira do mesmo nome, um afluente do rio Alva, a uma altitude de 700 metros. Envolvida por uma área florestal verdejante, a praia da Lapa dos Dinheiros, ou da Caniça, como é frequentemente chamada pelas gentes locais, pertence ao concelho de Seia.

 

Não dá dinheiro, pelo que nos sentimos levemente enganados. O nome provém da pitoresca aldeia mesmo ali ao lado, e toda a experiência encerra um pequeno paraíso natural que vale a pena visitar pelo seu magnífico enquadramento de montanha, rodeado por bosques de castanheiros e cascatas fantásticas. Gostámos imenso desta jóia ainda (e felizmente) suficientemente escondida para afastar grandes multidões. As infraestruturas de apoio estão impecavelmente mantidas e incluem um bar de apoio, parque de merendas, churrasqueira e casas de banho. O estacionamento não é muito amplo, mas ainda bem. Infelizmente não tivemos tempo de fazer o trilho pedonal que conduz ao afamado buraco da Moura, uma fantástica gruta com cerca de 100 metros,  e a um não menos famoso miradouro que permite contemplar as quedas de água, mas ficou na agenda aquando de um próximo regresso.

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